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“O que se produziu no anonimato e na opressão (consentida ou não) secular das mulheres foi a ilusão de uma leveza, de uma delicadeza – típicas armas usadas pelos mais fracos para dominar seus senhores sem despertar a fúria deles”.

“Seria pecado, pensava Severina. Não podia ser porque se viver não podia, como suportar um filho moribundo dia após dia estremecendo dentro dela, sorvendo de suas tripas apenas para ganhar força de morrer?”

“...é importante reconhecer que os estigmas relacionados ao HIV/Aids (...) surgem dos medos e preconceitos a respeito da pobreza, gênero, sexo e sexualidade, e raça, dando origem à intolerância e a ações discriminatórias, tanto racistas quanto sexistas”.

“O primeiro aspecto marcante é, sem dúvida, a radical transformação na composição por sexo da força de trabalho brasileira que, em cinqüenta anos, evoluiu de uma quase insignificante participação feminina da ordem de 12% para os 43% atuais”.

“...a significação social do comportamento das patroas nada mais é do que o horror à infecção que os pobres e os negros podem trazer às suas casas, estratégia higienista para manter a separação de pessoas de classes diferenciadas”.

“Os tiros contra ela disparados (enquanto dormia), a tentativa de eletrocutá-la, as agressões sofridas ao longo de sua relação matrimonial culminaram por deixá-la tetraplégica aos 38 anos de idade”.

Este mosaico reflexivo, extrato do pensamento de mulheres brasileiras, possibilita novos olhares em direção à emancipação do ser. A reflexão contida nas atitudes autonomiza as relações sociais e cria uma ressignificação de palavras como tolerância, coletividade, inclusão, cidadania. Sem a máscara do discurso, as ações diárias dessas autoras desvelam um Brasil que anseia pela disseminação dos valores da Cultura da Paz.

É necessário pensar novos modelos de participação e interação social pelos quais seja possível a construção de novas relações com o mundo. Democratizar os saberes é o ato libertário e estrutural da sociedade em busca de igualdade.
Somos parceiros pelo caráter transformador da proposta que nos une.


O Programa de Direitos Humanos da Fundação Ford tem como seu maior desafio identificar e apoiar ações que visam a consolidação do estado democrático de direito para assegurar tanto as liberdades civis quanto os direitos econômicos e sociais. A Constituição Federal de 1988, as leis ordinárias e os instrumentos internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil constituem um marco legal importante para as mudanças necessárias. No entanto, a democracia brasileira depende ainda de uma sociedade civil autônoma para lutar contra as desigualdades e ajudar a construir os mecanismos de implementação de direitos e combate à discriminação.

Especificamente, o Programa de Direitos Humanos busca contribuir para a construção de consciência sobre a discriminação racial e contra as mulheres no Brasil, além de elucidar as melhores formas de combater esta discriminação. Apóia pesquisa em ciências humanas e sociais, fortalecimento de organizações não-governamentais, cursos para operadores do direito e publicações específicas. Apóia também o desenvolvimento de uma infra-estrutura de direitos humanos através de cursos e seminários, programas universitários que ampliem o acesso à educação, promoção e defesa dos direitos humanos, o fortalecimento institucional de organizações da sociedade civil nas cinco regiões do país, além de redes de intercâmbio nacionais e internacionais, principalmente do hemisfério sul.

A Fundação Ford acredita que a Coleção Valores e Atitudes contribui para tornar visíveis experiências no Brasil com enorme potencial de mobilização e mudança social. Especialmente os movimentos de mulheres, que têm criado respostas criativas e inovadoras para responder a problemas estruturais de desigualdade. Com estas publicações, pretendemos não apenas mostrar a permanência destas práticas discriminatórias no Estado e na sociedade brasileiras, mas também como a população se organiza para educar, prevenir e proteger vítimas das violações de direitos humanos – como em casos de violência doméstica ou falta de atenção à saúde reprodutiva.

Os livros são inspiradores e emocionantes. Espero que vocês, leitores e leitoras, aproveitem esta viagem pelo grande Brasil conhecendo o que este país tem a oferecer para o mundo: a imensa capacidade de se reinventar e buscar saídas para o que parece impossível mudar.

Denise Dora
Programa de Direitos Humanos
Fundação Ford

Olhares femininos, mulheres brasileiras. O título contém a idéia mestra desse amplo projeto ancorado pela publicação desses dois títulos que integram a Coleção Valores e Atitudes e que se propõe a apresentar um mosaico de idéias, visões, práticas e propostas referentes ao universo feminino brasileiro.

Somos um corpo diverso, unido por aspectos históricos e culturais, muitas vezes distantes na realidade social, intelectual e econômica. O que nos une e o que nos diferencia? Como as mulheres brasileiras reagem a questões como sexualidade e aids, corpo modificado e erotismo, aborto e antecipação de parto, acesso ao mercado de trabalho, as disparidades de renda e de representação na esfera pública, prostituição infantil e emprego doméstico? Somos diferentes de nossos pares masculinos quando assumimos o poder, através de cargos públicos ou na iniciativa privada? Ou reproduzimos de forma alienada padrões sócio-culturais que reforçam as desigualdades estruturais da vida brasileira?

Há espaço para um novo feminismo, ou para as gerações mais jovens, esse é um tema superado? Os textos publicados nesse livro, todos inéditos, buscam responder essas questões, a partir de uma visão autoral confrontada muitas vezes com dados estatísticos e fatos da realidade. Para facilitar a leitura o livro foi divido em três capítulos, cada um com um conjunto de ensaios que abordam aspectos complementares do universo analisado. Assim temos no primeiro capítulo uma leitura sobre o universo íntimo feminino, através de temas como erotismo, prazer e corpo modificado, sexualidade e aids, direito ao corpo e a reprodução.

No segundo tratamos das desigualdades no Brasil, um tema complexo que não se esgota em questões de gênero, mas que encontra aí aspectos agudos, e muitas vezes silenciosos da vida pública nacional. Prostituição infantil, abuso e comércio ilegal de meninas e jovens. Como a sociedade brasileira, em especial as mulheres percebem e se relacionam com essas questões tão cruéis e infelizmente crescentes no país? E mulheres que empregam meninas e jovens em suas residências, reforçando o ciclo perverso do trabalho infantil ou mantendo contratos de trabalhos informais e sem garantia de empregos? E o racismo tão bem analisado no ensaio de Sueli Carneiro?

Ao tratarmos desses aspectos emergenciais para o avanço da democracia brasileira a questão de gênero é suficiente, ou precisamos avançar na análise das várias gradações que formam as desigualdades nacionais e que perpetuam o ciclo de indiferença e violação de direitos que estão submetidas amplas camadas da nossa população?

Os quatro ensaios que apresentam esse capítulo - que conta com a importante participação do Unicef analisando o futuro das meninas brasileiras diante das estatísticas de educação, saúde e violência – buscam aprofundar respostas nessa direção, mostrando que muitas vezes solucionar no tempo problemas característicos do universo feminino brasileiro, passa por ampliar a participação da mulher na solução dos grandes problemas nacionais, com uma agenda que atenda uma visão coletiva e que conduza a um avanço na qualidade dos serviços públicos e no fortalecimento das instituições, sem esquecer as disparidades entre homens e mulheres e as características próprias que elas têm no Brasil.

Analisar a representação da mulher brasileira na cena pública, tema do terceiro e último capítulo do livro, intitulado “Democracia e acesso à justiça” revela-se, assim, um fator decisivo. Temas atuais como os da violência doméstica, ainda tratada como problema de âmbito privado e não público, do direito à propriedade da terra pelas mulheres camponesas brasileiras ou da sub representação na esfera parlamentar e em cargos públicos executivos são objeto dos ensaios aqui publicados.

Como se viu são muitas as questões, algumas ainda sem respostas nos textos que seguem, que motivaram o desenvolvimento desse projeto, que além da publicação de dois livros – Olhares femininos, mulheres brasileiras e De Mãos Dadas – realiza uma série de iniciativas públicas, como debates e seminários, exibição de filmes, exposição fotográfica, com apoio da Fundação Ford, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, do SESC Rio e do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade.

Ao tentar evidenciar o olhar e a participação feminina nas artes, na cultura e nas ciências temos a certeza de que a contribuição de qualidade de cada uma das autoras ou instituições que prepararam ensaios para esse livro, colabora para melhorar o quadro de análise crítica sobre aspectos da vida da mulher brasileira. Iluminando os desafios e também os limites impostos ao desenvolvimento da vida social a partir do destaque às questões da mulher brasileira, fundamentais para compreendermos e superarmos nossos históricos problemas sociais e econômicos. A luta das mulheres, suas contradições e desafios, o muito que ainda se têm a fazer nos vários aspectos que formam essa multifacetada agenda do feminino brasileiro, motivaram a organização desse livro, muito bem compreendidos na fala final do prefácio a essa edição de Heloísa Buarque de Hollanda:

“Ainda que falte muito para que se possa falar na vitória definitiva das lutas feministas é certo que, como nos ensinou Maria Rita Kehl, a própria complexidade desse pensamento e militância e a força de seu potencial estratégico vão estimular a ação e a criação das mulheres nesse panorama bastante problemático que já nos apresenta o novo milênio.”

Marta Porto
organizadora