Olhares femininos,
mulheres brasileiras. O título contém
a idéia mestra desse amplo projeto ancorado pela
publicação desses dois títulos
que integram a Coleção Valores e Atitudes
e que se propõe a apresentar um mosaico de idéias,
visões, práticas e propostas referentes
ao universo feminino brasileiro.
Somos um corpo diverso, unido por aspectos históricos
e culturais, muitas vezes distantes na realidade social,
intelectual e econômica. O que nos une e o que
nos diferencia? Como as mulheres brasileiras reagem
a questões como sexualidade e aids, corpo modificado
e erotismo, aborto e antecipação de parto,
acesso ao mercado de trabalho, as disparidades de renda
e de representação na esfera pública,
prostituição infantil e emprego doméstico?
Somos diferentes de nossos pares masculinos quando assumimos
o poder, através de cargos públicos ou
na iniciativa privada? Ou reproduzimos de forma alienada
padrões sócio-culturais que reforçam
as desigualdades estruturais da vida brasileira?
Há espaço para um novo feminismo, ou
para as gerações mais jovens, esse é
um tema superado? Os textos publicados nesse livro,
todos inéditos, buscam responder essas questões,
a partir de uma visão autoral confrontada muitas
vezes com dados estatísticos e fatos da realidade.
Para facilitar a leitura o livro foi divido em três
capítulos, cada um com um conjunto de ensaios
que abordam aspectos complementares do universo analisado.
Assim temos no primeiro capítulo uma leitura
sobre o universo íntimo feminino, através
de temas como erotismo, prazer e corpo modificado, sexualidade
e aids, direito ao corpo e a reprodução.
No segundo tratamos das desigualdades no Brasil, um
tema complexo que não se esgota em questões
de gênero, mas que encontra aí aspectos
agudos, e muitas vezes silenciosos da vida pública
nacional. Prostituição infantil, abuso
e comércio ilegal de meninas e jovens. Como a
sociedade brasileira, em especial as mulheres percebem
e se relacionam com essas questões tão
cruéis e infelizmente crescentes no país?
E mulheres que empregam meninas e jovens em suas residências,
reforçando o ciclo perverso do trabalho infantil
ou mantendo contratos de trabalhos informais e sem garantia
de empregos? E o racismo tão bem analisado no
ensaio de Sueli Carneiro?
Ao tratarmos desses aspectos emergenciais para o avanço
da democracia brasileira a questão de gênero
é suficiente, ou precisamos avançar na
análise das várias gradações
que formam as desigualdades nacionais e que perpetuam
o ciclo de indiferença e violação
de direitos que estão submetidas amplas camadas
da nossa população?
Os quatro ensaios que apresentam esse capítulo
- que conta com a importante participação
do Unicef analisando o futuro das meninas brasileiras
diante das estatísticas de educação,
saúde e violência – buscam aprofundar
respostas nessa direção, mostrando que
muitas vezes solucionar no tempo problemas característicos
do universo feminino brasileiro, passa por ampliar a
participação da mulher na solução
dos grandes problemas nacionais, com uma agenda que
atenda uma visão coletiva e que conduza a um
avanço na qualidade dos serviços públicos
e no fortalecimento das instituições,
sem esquecer as disparidades entre homens e mulheres
e as características próprias que elas
têm no Brasil.
Analisar a representação da mulher brasileira
na cena pública, tema do terceiro e último
capítulo do livro, intitulado “Democracia
e acesso à justiça” revela-se, assim,
um fator decisivo. Temas atuais como os da violência
doméstica, ainda tratada como problema de âmbito
privado e não público, do direito à
propriedade da terra pelas mulheres camponesas brasileiras
ou da sub representação na esfera parlamentar
e em cargos públicos executivos são objeto
dos ensaios aqui publicados.
Como se viu são muitas as questões,
algumas ainda sem respostas nos textos que seguem, que
motivaram o desenvolvimento desse projeto, que além
da publicação de dois livros – Olhares
femininos, mulheres brasileiras e De Mãos
Dadas – realiza uma série de iniciativas
públicas, como debates e seminários, exibição
de filmes, exposição fotográfica,
com apoio da Fundação Ford, da Secretaria
Especial de Políticas para as Mulheres, do SESC
Rio e do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade.
Ao tentar evidenciar o olhar e a participação
feminina nas artes, na cultura e nas ciências
temos a certeza de que a contribuição
de qualidade de cada uma das autoras ou instituições
que prepararam ensaios para esse livro, colabora para
melhorar o quadro de análise crítica sobre
aspectos da vida da mulher brasileira. Iluminando os
desafios e também os limites impostos ao desenvolvimento
da vida social a partir do destaque às questões
da mulher brasileira, fundamentais para compreendermos
e superarmos nossos históricos problemas sociais
e econômicos. A luta das mulheres, suas contradições
e desafios, o muito que ainda se têm a fazer nos
vários aspectos que formam essa multifacetada
agenda do feminino brasileiro, motivaram a organização
desse livro, muito bem compreendidos na fala final do
prefácio a essa edição de Heloísa
Buarque de Hollanda:
“Ainda que falte muito para que se possa
falar na vitória definitiva das lutas feministas
é certo que, como nos ensinou Maria Rita Kehl,
a própria complexidade desse pensamento e militância
e a força de seu potencial estratégico
vão estimular a ação e a criação
das mulheres nesse panorama bastante problemático
que já nos apresenta o novo milênio.”
Marta Porto
organizadora |