DIA 05 DE JUNHO
Jacob Pinheiro Goldberg



“O ser humano mergulha em grupo para manter sua individualidade”
Jacob Pinheiro Goldberg avalia a dinâmica de tribos urbanas e coletividade

O módulo Pathus, que discutiu a relação do homem consigo e com os outros, começou 05 de junho na Caixa Cultural Rio de Janeiro com a palestra do psicanalista e autor Jacob Pinheiro Goldberg. Intitulada “Tribos urbanas, movimento de massas e mobilização social: Silêncio e histeria nas manifestações públicas”, a conferência provocou reflexões sobre a luta pela subjetividade na coletividade imposta. “A megalópole é um mundo de imigrantes, um universo flutuante que desemboca na Internet. Aonde se confunde o simbólico e o imaginário. É da rede extraordinária que nos promete a cada instante o mundo da fantasia. Não por acaso os programas de TV de maior audiência são projetivos, encerram num universo fechado todo o hedonismo possível”, afirma.

Para Goldberg, ao se analisar tribos urbanas, é preciso falar sobre o respeito da hierarquia da exposição e o silêncio existente nesses grupos. “Para resistir, as tribos precisam muito do não-dito. Em grande parte é nele que existe a proteção contra o medo. E implica numa sensação de continuidade que na espécie se manifesta na vontade de ter filhos e de prosseguir”, defende. “O ser humano mergulha em grupo para manter a sua individualidade. A palavra ‘interesse’, etimologicamente, é inter-esse, que quer dizer ‘estar entre’ ou ‘estar com outro’. Mas há risco e perigo desse apego a essas uniões que se estabelecem em cima de tribo. Por exemplo, os pitboys. Uma tribo que durante o dia nem tem sequer elementos comuns, mas à noite sai para bater e quebrar”, define.

 

DIA 12 DE JUNHO
Alcione Araújo



“Há uma esquizofrenia entre educação e cultura”
Alcione Araújo disseca importância da arte na subjetividade e na educação

“A arte é indispensável. Se, ao menos, soubéssemos para quê?”. Foi a partir desta citação de Jean Cocteau que o autor, dramaturgo e diretor Alcione Araújo começou sua aclamada palestra “Dimensão da arte e construção das identidades: Transgressão ou função?”, no Ciclo Paideia do último dia 12. Para o conferencista, a arte não seria do domínio dos artistas – e sim uma necessidade humana. “A arte é tão indispensável quanto é o amor, a morte, a fé e os sonhos. Porém, ela não é capturável para um objetivo, a percepção da arte é uma percepção subjetiva que tenho daquela organização de idéias, necessidades, palavras. Inteiramente subjetiva”, defende.

Alcione lembra que o papel da arte não é de mero enriquecimento da subjetividade. Mas por que, então, há uma demanda cada vez menor por arte no Brasil? Uma das origens seria o tardio interesse do Estado pela educação, contemporâneo à corrida tecnológica mundial. O dramaturgo investiga as origens do sistema educacional brasileiro e, para ele, duas bombas provocaram a cisão entre educação e cultura: o modelo educacional americano e a indústria do entretenimento. “Há uma esquizofrenia entre educação e cultura. A educação sem as humanidades, sem o pensar e o sentir, se transformou em adestramento para a produção. As pessoas não têm interesse pela arte porque ninguém disse para elas que é importantíssimo para a subjetividade. Não aumenta salário, mas realiza seus próprios desejos, aquilo que se entende como felicidade pessoal e individual”, esclarece.
 

DIA 19 DE JUNHO
Yves de La Taille


“Politizaram a moral e acabaram com ela”
Yves de La Taille acusa que a moral no Brasil tem sido deturpada e politizada

Uma sociedade cada vez mais idosa, onde os mais velhos se ausentam e os mais jovens têm voz. Adolescentes que recebem contraditórias mensagens sobre moral e ética da sua família, escola e mídia. Este é o cenário que foi debatido pelo pesquisador de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Yves de La Taille. A conferência intitulada “Convivência, intolerâncias e conflitos urbanos: Novas gerações e a ética do possível” aconteceu no último dia 19 para uma platéia lotada no auditório da Caixa Cultural Rio de Janeiro (RJ), como parte do módulo Pathus do Ciclo Paideia – Fórum de Idéias.

“A matéria Educação Moral e Cívica foi extinta, que Deus a tenha. Porém cada professor é obrigado a falar de moral. Só que cada um fala uma coisa e a criança fica totalmente desorientada. Há um analfabetismo moral instalado hoje. A sociedade não trabalha a questão moral. Pior ainda, às vezes trabalha contra e passa mensagens contraditórias, como nas campanhas publicitárias. Não estou dizendo que a propaganda seja má, mas muitas passam mensagens de conflito”, denuncia o psicólogo. “A bandeira da moral é classicamente de direita. Trabalho, propriedade, família. Por isso a esquerda fugiu da moralidade. Mas ética não é política, é universal. Politizaram a moral e acabaram com ela. Na verdade, é uma grande desonestidade. Qualquer partido que se diga o grande criador da ética está mentindo, porque a ética não é uma questão política”, conclui.

DIA 26 DE JUNHO
Luiz Alberto Py



“Alguma coisa vai mal com todos nós”
Luiz Alberto Py revela sintomas de que somos uma sociedade doente

Na semana em que o último tema do módulo Pathus do Ciclo Paideia é “Amor, cuidado e relações familiares: Pais, filhos e sociedade” um crime provoca indignação no país. Cinco jovens de classe média alta espancam uma empregada doméstica num ponto de ônibus na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio) e roubam o seu celular, aparentemente por puro divertimento. Manchete em todos os jornais, o caso não poderia deixar de ser comentado pelo psicanalista Luiz Alberto Py na palestra do dia 26. “O meu sentimento é que esse incidente aparece como um sintoma. Alguma coisa vai mal com todos nós. Em geral, os sintomas nos dizem que alguma coisa está errada com o organismo”, compara.

“O que mobilizou a população e a mídia foi o fato de este incidente não ser uma coisa isolada. Não foi um grupo de garotos doidos que atacou uma pobre moça no ponto de ônibus. Se fosse isso, ninguém teria dado tanta importância. A importância se deve ao fato de que isso avisa que alguma coisa está errada. É o sintoma. Nosso instinto diz que tem um sintoma aí”, explica. “Crime estúpidos, gratuitos, sem sentido, são tipicamente brasileiros. Tocar fogo num índio, espancar uma pessoa sentada na rua, arrastar um menino pelo carro. Aquela coisa de ‘não tem importância, é assim mesmo que é, todo mundo é assim’. A doença da nossa sociedade é essa brutal inversão de valores com a qual nós convivemos”, encerra.
 


Paideia agora no Flamengo



“Novo endereço brinda lançamento de Maria Rita Kehl”
Evento vai para o Arte SESC e promove noite de autógrafos da conferencista

No dia 03 de julho, o Paideia começa o seu terceiro módulo, Eros, com a palestra “Cultura do espetáculo: Consumismo e imediatismo nas novas identidades sociais” da psicanalista Maria Rita Kehl e um debate com o público. O evento de duas horas será seguido por uma noite de autógrafos do seu mais recente livro, Videologias, escrito em parceria com Eugênio Bucci. Segundo lançamento da Coleção Estado de Sítio, da Editora Boitempo, o texto tem prefácio da professora de filosofia da USP Marilena Chauí. Seu título faz um trocadilho com a célebre obra Mitologias, de Roland Barthes, e une visão crítica e psicanálise para dissecar relações entre mitologias, ideologias e TV.

“Esta será também a estréia das conferências semanais do Paideia no Flamengo, todas as terças às 19h, até o final de agosto. Durante os dois primeiros meses palestras e debates aconteceram no Caixa Cultural Rio de Janeiro, no Centro do Rio. E, a partir de julho, os próximos dois módulos – Eros e Mythus – mudam de endereço e são realizados no auditório do Arte SESC (Rua Marquês de Abrantes, 99 - Flamengo), cuja capacidade é de 240 pessoas. A entrada é franca e as inscrições podem ser feitas online no site do evento, www.xbrasil.net/paideia.