Dia 12 de JUNHO
ALCIONE ARAÚJO


“Há uma esquizofrenia entre educação e cultura”
Alcione Araújo disseca a importância da arte na construção da subjetividade humana e denuncia conseqüências da cisão entre a cultura e o sistema educacional brasileiro

“A arte é indispensável. Se, ao menos, soubéssemos para quê?”. Foi a partir desta citação de Jean Cocteau que o autor, dramaturgo e diretor Alcione Araújo começou sua aclamada palestra “Dimensão da arte e construção das identidades: Transgressão ou função?”, no Ciclo Paideia do último dia 12, na Caixa Cultural Rio de Janeiro. Para o conferencista, a arte não seria do domínio dos artistas – e sim uma necessidade humana. “A arte é tão indispensável quanto é o amor, a morte, a fé e os sonhos. Porém, ela não é capturável para um objetivo, a percepção da arte é uma percepção subjetiva que eu tenho daquela organização de idéias, necessidades, palavras. Inteiramente subjetiva”, defende, pouco antes de analisar a falta de demanda por arte nos dias de hoje.

Alcione lembra que o papel da arte não é de mero enriquecimento da subjetividade. Mas é a partir dela que surge a democracia plena. “Porque você está explicitando o desejo oculto de um sujeito objetivo. A democracia é a convivência do plural, que não necessariamente precisa estar dentro da moldura simplória de um partido. Ele pode não ser um partido, inclusive. Trata-se de estar no mundo na sua plenitude de ser humano, de indivíduo e de cidadão. O cidadão não é pleno se o indivíduo não o for. Portanto a subjetividade é muito mais um fundamento do pleno exercício da democracia, aceitando as vitórias e as derrotas. Mas não ocultando o seu direito de sê-lo como é, exercer-se na plenitude do que é. E não encapsular-se nas molduras pré-formadas de alguém que construiu um projeto, não necessariamente seu”, aponta.

Arte para todos

O dramaturgo faz questão de enfatizar que a arte não é algo hermético e destinado apenas aos ‘entendidos’. Muito menos exigiria pressupostos. “Não posso negar, evidentemente, que alguém que saiba, pelo instrumental de cultura, absorverá mais e melhor a arte. Mas isso não significa que aquele que vê pouco não possa ver. Eu vejo o mundo com os meus olhos. Se eu desenvolver uma pedagogia do olhar, eu verei mais sobre o mundo”, compara, observando o fenômeno da transcendência que a arte oferece ao homem. “A arte é capaz não apenas de expandir a subjetividade, como também de oferecer essa experiência de sair desse mundo e entrar na obra irreal e ficcional. É uma experiência muito profunda”, diz.

Mas por que, então, haveria hoje uma demanda cada vez menor por arte no Brasil? Uma das origens seria a infeliz coincidência de o tardio interesse do Estado pela educação ter sido contemporâneo à corrida tecnológica mundial. “O Brasil proclama a República em 1889 e vai começar a discutir a idéia de escola pública nos anos 1930! Era muito tarde. E nos anos 1950 surgiu a idéia de que a tecnologia estivesse embutida na construção dos impérios econômicos. A tecnologia passou a ser algo fundamental e essencial para os estados, algo capaz de gerar os empregos. Portanto, ela não só trazia o poder, como era capaz de resolver um problema social. Os americanos assumem isso à frente e começam a construção do império que nós conhecemos hoje”, situa.

Duas bombas

Alcione Araújo investiga as origens do sistema educacional brasileiro e em que momento houve uma dissociação entre educação e cultura. Para ele, duas bombas provocaram essa cisão: a entrada do modelo educacional americano e a indústria do entretenimento. “Quando se constrói o império americano, o modelo educacional brasileiro cruza o Atlântico da França para os Estados Unidos. Largamos toda aquela riqueza impressionante da Europa e fomos reproduzir o modelo americano que, naquele momento tinha como referência básica a tecnologia. Biologia, física, matemática, nada contra. Apenas que, devido a circunstâncias sociais, o nosso modelo passa a abrigar as ciências e tirou do curso as disciplinas chamadas de humanidades. A educação abriu mão daquilo que leva ao pensamento e à sensibilidade. E deu ênfase a tudo que é tecnológico”, explica.

“Somos 190 milhões de brasileiros. Desses, 62 milhões estão envolvidos com educação, é a população da França inteira. Mas um romance no Brasil tem a tiragem de 3 mil exemplares, o número de moradores de um conjunto habitacional! Há uma esquizofrenia entre educação e cultura. A educação sem as humanidades, sem o pensar e o sentir, se transformou em adestramento para a produção. As pessoas entram nas universidades para aprender truques para arrumar um emprego. E elas não têm culpa disso. As pessoas não têm nenhum interesse pela arte porque ninguém nunca disse para elas que é importantíssimo para a sua subjetividade. Não vai aumentar salário, mas ela vai ser uma pessoa melhor para ela mesma, para a realização dos seus próprios desejos, para aquilo que ela entende como sua felicidade pessoal e individual”, esclarece.

Para o dramaturgo, a segunda bomba que distanciou cultura e educação foi a indústria do entretenimento. “Nos anos 60 houve um esforço de diálogo entre cultura tradicional e cultura popular. Mas a ditadura percebeu que havia algo muito grave, que era a aproximação das elites com as classes populares, e bloqueou completamente. Foi um aborto no nascedouro. Aí a televisão entra no Brasil e ocupa o espaço vago entre essas duas culturas. Contamina de um lado a cultura de espírito e de outro a cultura popular. Regredimos do ponto de vista da Semana de Arte Moderna, do movimento dos anos 60 e da nossa capacidade de sentir e pensar. Voltamos a um grau primário, estamos lidando com emoções primárias. Hoje a juventude reage como os personagens das telenovelas e têm a televisão como os seus valores. Nós nos afastamos da criação. Temos um país que está cada vez mais empobrecido, medíocre na sua criação cultural.”

“Pode dar impressão que eu esteja demonizando a televisão. Se ficarmos demonizando coisas, não vamos entender um fenômeno que é muito mais complexo. Quem pode mudar esse processo, é a educação e a cultura. É a educação que gera consciência e sensibilidade. Mas a sociedade brasileira não tem a educação como um valor em si, ela usa a educação para chegar a um emprego. Os intelectuais não têm mais nenhum papel na sociedade brasileira. O intelectual, o humanista, desapareceu. Ele não está na mídia, ele não está na academia, ele não está em lugar algum. Provavelmente ele está trancado em casa sem ter com quem conversar porque está isolado. Subjetividade, agregar a sua vida a outras vidas, isso quem estimula ou é a família ou é a educação. Só que o Brasil é um país sem família e sem educação”, denuncia.