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Dia 07 de agosto
Antônio Carlos dos Santos
“O monoteísmo já nasce intolerante”
Antônio Carlos dos Santos acredita que religiões monoteístas sejam intolerantes desde o início e que recrudesceram só após os anos 70
Mythus, o último módulo do Ciclo Paideia, começou no dia 7 de agosto com a palestra Poder, fundamentalismos e intolerância: O recrudescimento dos movimentos religiosos, no Arte SESC. Nela, o mestre em filosofia e autor Antônio Carlos dos Santos falou sobre monoteísmo, secularização e fundamentalismo. E tentou resgatar, através de elementos históricos, as possíveis razões para guerras e ataques terroristas em nome de Deus que assolam o mundo contemporâneo.
“Vemos uma proliferação exacerbada do mercado religioso. O filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, rendeu cerca de 370 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, há 250 emissoras de TV e 1.200 rádios exclusivamente cristãs. Num país tido como secular, é de estarrecer. Aqui temos o Padre Marcelo Rossi, com suas ‘show-missas’. Percebemos no dia-a-dia a mercantilização do sagrado. O sagrado virou um comércio como qualquer outro. Sem contar na arquitetura religiosa. Em todas as cidades você se depara com as chamadas catedrais da fé, centros que foram ocupados justamente nos lugares antes ligados à cultura. Cinemas que foram transformados em centros de bênção. Aí a nossa paisagem vai se tornando cada vez mais moralizante”, defende.
Deus Todo Poderoso
Antônio Carlos dos Santos comentou a transição do politeísmo das culturas babilônicas e greco-romanas para o monoteísmo. “As religiões primárias do mundo antigo cultuavam vários deuses. Mas aí surgiram as secundárias que, para serem constituídas enquanto religião, foram ‘reveladas’ para um fundador. Só foi possível o nascimento delas graças à escrita. As nossas religiões surgem com o texto sagrado. O que antes eram vários deuses e várias culturas disseminadas, agora passa a ser baseado num texto sagrado revelado a um fundador. As três grandes religiões foram fundadas desta forma: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo”, diz.
“Da passagem do sistema politeísta para o monoteísta, houve uma verdadeira revolução. Como é possível uma cultura ser constituída de vários deuses e, num pouco espaço de tempo, eles serem abolidos e aniquilados para dar lugar a um único Deus? Só por meio da violência. Ou seja, o monoteísmo já nasce intolerante. A primeira coisa que o monoteísmo fez foi introduzir o conceito de verdade. O Deus judaico é único e a fé é única. E não pode haver outra, os outros são falsos, só há esta verdade. Esta é a primeira mudança, a da linguagem. A segunda mudança foi a expulsão dos nossos deuses das tribos, dos cultos e dos hábitos seculares que remontavam o século 18 antes de Cristo. Tudo isso é enormemente afetado em detrimento de um único Deus. É óbvio que o monoteísmo é intolerante. Ele nem aceita a possibilidade de existência do outro. É ele ou o outro. Ele é altamente excludente, portanto, intolerante”, alega.
Recompensa dos céus
Para o filósofo, que é professor na Universidade Federal de Sergipe (UFS), outro ponto importante de discussão seria o distanciamento entre o poder civil e o poder religioso a partir do século 17 d.C.. “Chegamos ao século 16 com a Europa cindida em guerras de religião entre católicos e protestantes. Temos o Concílio de Trento que vai reconfigurar o poder da Igreja no mundo, aí são formadas as metas através das quais o cristianismo terá uma nova cara e é formada a Companhia de Jesus, uma espécie de exército para proteger a religião. Foi nessa mentalidade que enviaram soldados para defender a fé cristã. No século 16, a Europa está totalmente cindida e, no século 17, alguns pensadores vão se dedicar ao estudo da intolerância”, observa.
“Em 33 d.C., quando começa o cristianismo, até o século 17, há uma união exacerbada do poder religioso e do poder civil. Isso leva à reforma protestante. Os protestantes reivindicam um lugar ao sol e, como quem se identifica com o poder não quer largar dele, ocorrem abusos. A questão vai tomar conta das universidades e ser tema central de filósofos de boa parte dos séculos 17 e 18. E começam a questionar que o cristão age de forma interesseira, esperando recompensa futura, ao contrário do ateu. Quando o ateu pratica uma caridade, é porque acha importante ir ao encontro do outro e dar um apoio, ele não espera nada em troca”, continua.
O grande satã
De acordo com o palestrante, ao contrário do cristianismo e do judaísmo, no islamismo não haveria espaço para a secularização. “O alcorão é o código de direito, de moral e de conduta. A secularização é imprensada no mundo islâmico. Do século 13 pra cá, o islamismo passou a entrar num processo de isolamento em relação ao mundo ocidental, o que só fez aumentar esse recrudescimento. A partir dos 60, com a Crise do Petróleo, eles têm uma riqueza inesgotável e se dão conta de que podem controlar os países desenvolvidos com esse petróleo. Aí resolvem islamizar a cultura ocidental. De que forma? Violenta. Porque é uma missão islamizar aquilo que é corrupto, que é degradante e que está se corrompendo cada vez mais, que é o mundo ocidental. Sobretudo ‘o grande satã’, que são os Estados Unidos. Essa é a idéia”, justifica.
“O fundamentalismo é, por um lado, esse apego às letras do Alcorão tal qual foi escrito na época de Maomé. E, por outro, é hostilizar e se opor radicalmente à modernidade. Os fundamentalistas se põem como os guardiões da moralidade e da religião, ignorando por completo os arranjos do mundo contemporâneo. Eles não se vêem como suicidas, mas como mártires em nome de Alá. Por que há um recrudescimento? A partir dos anos 70 vemos uma reforma mundial das três grandes religiões. No Vaticano, o Papa João Paulo II foi eleito em 1978. Em Israel, Menachem Begin assume como Primeiro-Ministro em 1977. E no Irã o Aiatolá Khomeini, em 1979, funda a revolução islâmica, a partir da qual influenciou todo esse novo projeto de islamizar o mundo ocidental”, acredita.
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