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Dia 28 de agosto
Lia Diskin
“Não devemos evitar o conflito”
Lia Diskin conclama o restabelecimento de valores éticos, diálogos e conflitos salutares para construir uma Cultura de Paz
Quatro meses e quatro módulos depois, chega ao fim o Ciclo Paideia. A palestra de encerramento, integrante do Mythus, aconteceu no dia 28 de agosto com a jornalista e co-fundadora da Fundação Palas Athenas, Lia Diskin. Com seu inconfundível sotaque argentino, a conferencista trouxe o tema Valores que não tem preço: Promovendo a cultura de paz no cotidiano, que mobilizou a platéia presente no Arte SESC a refletir sobre responsabilidade e liberdade no compartilhamento do espaço físico, alimento, intimidade e cuidado. “A ética costura relações porque é o que nos permite mantê-las saudáveis e biologicamente sustentáveis. A ética é um fio invisível que permite que esta relação cresça. Cada um alavancando o melhor do outro, cada um desejando o crescimento do outro, que vai ser a possibilidade de futuro desta comunidade”, observa, lembrando três valores sem os quais não se pode falar de ética: confiança, respeito e honestidade.
“Confiança é contar que o outro quer o meu melhor, apostar que o outro também quer o meu crescimento e o meu desenvolvimento, fazer depositário ao outro de minha fé. Já o respeito não é de maneira nenhuma aquilo que se destina a quem está distante. Respeito tem que estar muito próximo e tem a ver com a realidade do outro, a compreensão do espaço psicológico e geográfico que ocupa o outro. Por último, a honestidade é saber a que me ater num relacionamento com o outro. Um espaço pautado pelo sigilo, ocultamento e possibilidade da verdadeira relação. Temos que exigir honestidade daqueles com os quais nos relacionamos”, conclama, afirmando ser necessário tornar estes três elementos menos filosóficos e mais viscerais, em prol da convivência.
Valorizando o diálogo
Lia Diskin fez um contraponto entre diálogo e discussão. Enquanto o primeiro visa mostrar, estabelecer relações, compartilhar idéias, questionar, aprender, compreender e interagir com o todo, o segundo pretende fechar questões, convencer, demarcar posições, defender idéias, persuadir, ensinar, explicar e interagir com as partes em separado. “O objetivo do diálogo é poder saber através do outro o que é significativo para ele, o que é importante e quais são as suas necessidades. Sem o diálogo eu não consigo conhecer a peculiaridade do outro com quem temos relação. Diálogo nunca está fechado, sempre abre questões”, pondera a conferencista, citando recentes pesquisas sobre a paz revelam as múltiplas fases da violência e novas tecnologias de convivência.
“As novas tecnologias de consciência estão começando a permear o nosso cotidiano. Começam a falar de mediação de conflitos. Começam a falar e perceber mediadores de pequenas causas dentro do Judiciário. E, ainda dentro do Judiciário, o que se chama de Justiça Restaurativa, como contrapeso ou balanço para uma Justiça Punitiva. Também se começa a falar, felizmente aqui no Brasil de maneira muito expressiva, de Responsabilidade Social. Que não é esta responsabilidade social do Governo ou da Igreja apenas. Mas que passa a permear todas as pessoas na sociedade brasileira, desde empresas até o cidadão. Não é suficiente que se pague impostos. Sempre lembrando que, depois que se tem responsabilidade, se tem liberdade. E vice-versa. Quando se tem responsabilidade, se tem a capacidade de poder dar respostas a determinadas questões importantes”, diz.
Cultura de Paz
O conceito paz como cultura, que inspirou o título da palestra, foi cunhado por Frederico Major Zaragoza na Conferência de Yamoussoukro (Costa do Marfim), em 1995. Foi no documento final deste encontro que se viu pela primeira vez a expressão Cultura de Paz. “Ela não é algo que nasça com um decreto, que corresponda a um estamento ou a uma lei impositiva. É algo que se trabalha, que se constrói politicamente, com resultados dos anseios coletivos de costumes e, por sua vez, com o respeito e a manutenção de tradições que herdaram, que ainda continuam sendo significativas e valiosas. Nesse sentido de cultura, é extremamente recente o seu surgimento”, explica Lia, que em 2006 recebeu da Unesco um diploma de reconhecimento por suas atividades na área da Cultura de Paz.
Segundo a conferencista, a chamada Cultura de Paz tem oito eixos: Educação para a Paz; Desenvolvimento Sustentável; Direitos Humanos; Igualdade entre Mulheres e Homens; Participação Democrática; Entendimento, Tolerância e Solidariedade; Livre Circulação da Informação; Paz e Segurança Internacionais. “A Cultura de Paz propõe despertar e tirar as máscaras, com menos ocultamento e menos sigilo. Criar informação. As nossas crianças precisam saber quais são as nossas pulsões que lhe impõe a vida, saber que existe algo chamado agressividade, totalmente natural e inerente aos seres vivos, mas que não necessariamente temos que desenvolver. É necessária a competência pró-ativa, mas não tem porquê impor machucando o outro, humilhando o outro, tirando o bem do outro ou, literalmente, destratando o outro”, esclarece.
Conflito salutar
Para a pesquisadora argentina, o conflito não seria o inimigo nº 1 da paz. “O que devemos evitar nunca é a diversidade de interesses e a diversidade de necessidades. Não devemos evitar o conflito. O que devemos evitar é usar a violência como meio de resolver os conflitos. E a violência não é só o conflito, é também a ameaça, o terrorismo emocional dos jovens. A violência toma muitas faces. O conflito é salutar, é sinal de que os vínculos estão sendo processados a partir de uma base democrática, que não existe acomodação no sentido de delegar responsabilidades e decisões para alguém. Só tomem cuidado porque não é somente violento quem está hierarquicamente acima”, diferencia.
Lia Diskin escolheu uma citação de Nelson Mandela para encerrar seu debate: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. “O que Mandela quis dizer é que todo ódio é construído, historicamente alimentado e nutrido. Conseqüentemente, toda solidariedade, toda aproximação, todo amor também podem o ser. Acredito que, em última instância, tenha sido esse também o objetivo de todos os encontros do fórum Paideia”, conclui.
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