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Dia 31 de JUlHO
Mirian Goldenberg
“O corpo no Brasil é um verdadeiro capital”
Mirian Goldenberg identifica uma nova moralidade brasileira, em que o corpo perfeito se torna instrumento de ascensão social
O módulo Eros do Ciclo Paideia não poderia encerrar de modo mais instigante. No último dia 31, a aplaudidíssima palestra da antropóloga e autora Mirian Goldenberg sobre Culto ao corpo, mídia e novas formas de erotismo apontou as origens da valorização das formas físicas no Brasil e traçou um panorama sobre como a pressão pelo corpo perfeito tem influenciado as nossas relações sociais. Foram mais de duas horas de análises teóricas de Gilberto Freyre, Marcel Mauss e Pierre Bourdieu até exemplificações dos atuais ícones da cultura brasileira no mundo, Ronaldinho Gaúcho e Gisele Bündchen.
“O corpo no Brasil é um verdadeiro capital, uma verdadeira riqueza. Talvez a mais desejada tanto pelos indivíduos das camadas médias e até das camadas mais pobres. Porque percebem este corpo como veículo de ascensão social e também um importante capital no mercado de trabalho, no mercado de casamento e, principalmente no mercado sexual brasileiro. Quando você vê essas mulheres que passam o dia cuidando do corpo e fala ‘nossa, elas são tão superficiais’, você não pode dizer isso. Porque, no Brasil, o corpo talvez seja o mais importante capital. E, talvez, um dos mais importantes instrumentos de ascensão social”, provoca.
Macaquices
Mirian, que também é doutora em Antropologia Social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que Gilberto Freyre já analisava mudanças nos padrões de beleza brasileiros. Embora a mulher típica seja miscigenada e curvilínea, nos anos 1980 havia os primeiros sinais de valorização de uma estética européia. “Freyre dizia que a brasileira macaqueia modelos que não brasileiros. Ele criticava uma cultura que elegia um modelo europeu de mulher a ser imitado. Isso é quase uma violência. Uma brasileira fruto da miscigenação sexual não pode ter uma pele branca, um cabelo liso e loiro. A não ser que ela violente muito o corpo dela. É um pouco o que acontece hoje no Brasil”, compara.
Gilberto Freyre classificava Sonia Braga como o perfeito biotipo de beleza brasileira e via com estranheza a valorização de um padrão como o de Vera Fischer, que começava a despontar como atriz. Desde então surgiram outros símbolos de beleza européia de grande influência na mídia, como Xuxa. “Há 20 anos as crianças têm, não só a Xuxa como outras apresentadoras, como representantes de uma beleza européia. As crianças brasileiras nos últimos 20 anos têm tido este ideal de corpo, beleza e sexualidade como ideal a ser imitado”, comenta, usando também como exemplo o polêmico Concurso Miss Brasil 2005, que só apresentou candidatas loiras, altas e longilíneas.
Imitação prestigiosa
Em seguida, para investigar o crescente culto ao corpo, a antropóloga citou o conceito de “imitação prestigiosa” de Marcel Mauss. “Toda cultura imita aqueles que têm prestígio, sucesso e dinheiro. Não é um fenômeno só brasileiro. E quem tem prestígio, dinheiro e sucesso no Brasil hoje? São as pessoas que usam o seu corpo. Ronaldinho Gaúcho e Gisele Bündchen são os únicos brasileiros na lista de 100 pessoas mais influentes no mundo. Os dois que têm o seu corpo como principal capital. De formas diferentes, uma como aparência, outro como potencialidade física”, argumenta. “Quando pensamos em imitar, não é só porque queremos imitar ou sermos iguais. Queremos imitar para conquistar o que essas pessoas, que têm o corpo como principal capital, têm e nós não temos”, diz.
“Na França, adolescentes imitam mães no sentido de ser uma pessoa adulta. Aqui é o contrário, mães, filhas e avós usam as mesmas marcas de roupas. Quanto mais idade você tem, maior é a preocupação de parecer mais jovem, o que é impensável na Europa. Ser uma mulher madura e se comportar como tal, lá é um valor. Aqui é ser velha, é o oposto”, afirma. “Aqui as roupas são usadas como pretexto para exibir o busto e as nádegas. E, quanto mais trabalhado e modificado é o corpo, mais ele deve ser exibido. A verdadeira roupa no Brasil é o corpo. É o corpo que é imitado. É o cabelo, é o músculo, é o peito. O silicone é um bom exemplo disso”, aponta, revelando que as brasileiras são as maiores consumidoras de tinta loira e campeãs em cirurgias plásticas no mundo.
Equilíbrio de antagonismos
Mirian Goldenberg observou que houve uma mudança de paradigma entre as mulheres brasileiras que, a partir da década de 1980, deixaram de desejar apenas se casar e ter filhos – agora elas querem casar e ter filhos, mas também ser sexy, ficar eternamente jovens e ter o corpo. Desde então houve uma explosão de consumo na indústria da estética e cosmiatria, devido ao aumento do poder aquisitivo destas mulheres que entraram no mercado de trabalho. Em contrapartida, o próprio mercado de trabalho brasileiro passou a também valorizar o corpo.
“É muito comum anúncios de emprego com a frase ‘exijo boa aparência’, que não é estar com cabelo branco ou gorda. Atrás desta expressão entra todo este modelo de corpo, que é jovem, magro, cuidado. Na Europa, as mulheres usam roupas extremamente retas e discretas porque querem ser contratadas pela sua competência profissional. Aqui se você fizer um concurso e sem boa aparência, você vai competir com mulheres competentes e de boa aparência. E vai provavelmente ter menos qualificação. Porque boa aparência é um valor, inclusive no mercado de trabalho. Para não falar num mercado que é muito desfavorável para as mulheres brasileiras, que é o mercado de casamento”, continua.
A antropóloga fala ainda sobre o conceito de Pierre Bourdieu de “dominação masculina”, que influencia não só mulheres como homens. Elas querem ficar pequenas da cintura para baixo, eles querem ficar grandes da cintura para cima. E traz à tona a idéia de “equilíbrio de antagonismos” defendida por Gilberto Freyre. “Temos uma sociedade cada vez mais individualista, mas nos submetemos à pressão social desse ideal do corpo. A mulher brasileira nunca foi tão livre, mas nunca foi tão preocupada e controlada por uma idéia de corpo. Essa idéia de corpo natural e saudável, ao mesmo tempo o corpo esculpido e moldado. E o modelo tropical de mulheres seminuas, mas usando cabelo loiro e liso como uma européia – e com o peito de uma norte-americana. Aqui você convive com essas contradições e parece que é normal. Todas somos esse poço de contradições longilíneo”, conclui.
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