
Obras de Rozana Palazyan, Marcia X e Cristina Salgado. |
Dia 17 de JUlHO
Heloísa Buarque de Hollanda
“A arte feminina hoje é muito mais violenta e política”
Heloísa Buarque de Hollanda fala sobre a nova expressão do desejo das mulheres nas artes plásticas e literatura
Após uma semana de intervalo, o módulo Eros do Paideia voltou à ativa no último dia 17 com a professora de Teoria Crítica da Cultura da UFRJ, pesquisadora e autora Heloísa Buarque de Hollanda, cujo tema de discussão foi Políticas Estéticas. A palestra, que aconteceu no Arte SESC, apresentou trabalhos de destaque no cenário da literatura e artes plásticas das décadas de 1990 e 2000. E dissecou, através de slides de textos e fotos, como as artistas brasileiras contemporâneas expressam seu novo olhar e suas novas demandas feministas. Apesar de muitas delas não se consideraram feministas.
“Ser feminista é complicado. Parece que você é contra os homens. A figura mais antipática para estas novas artistas é a guerra de posição que havia nos anos 1960. Foi uma hora em que as mulheres foram à luta numa guerra xiita, demarcando território, estabelecendo diferença e formando identidade. Nos anos 70 e 80 já se entra numa fase de guerra de manobra, uma desconstrução da chamada sensibilidade feminina. E as mulheres dos anos 90 em diante caíram num certo enjôo geral sobre o feminismo. Continua a luta na área jurídica, mas na área teórica acontece um certo declínio. As palavras de ordem feministas ficam um pouco banalizadas e sem sentido com o contexto. Até mesmo porque as mulheres já conquistam posições muito interessantes”, compara.
As artistas iradas
Heloísa Buarque de Hollanda intercalou fotos de pinturas, esculturas e instalações de Cristina Salgado, Ana Miguel, Rosana Palazyan e Márcia X com textos e poemas de Claudia Roquette-Pinto, Bruna Beber e Andréa Del Fuego. Segundo a palestrante, estas artistas selecionadas têm em comum o fato de serem explícitas e góticas no seu discurso. “As mulheres até os anos 70 eram auto-referentes, falavam da sua diferença, agressividade e subjetividade. Agora essas mulheres olham para fora e vêem imagens estranhas, elas são muito críticas. Elas estão olhando à volta e também lá dentro, como elas são vistas. Estas artistas de hoje são as que não se consideram feministas. Se você olhar para uma arte dos anos 60, não tem essa violência. Já as mulheres contemporâneas têm um conteúdo de violência gigantesco. Elas deformam, prendem, dizem. Elas são bastante iradas”, define.
“Todas as imagens da Cristina Salgado são de mulheres nuas retratadas com salto alto e bolsa, nada mais incômodo, o retrato do mal-estar do mundo. A Cristina trabalha o retrato da mulher e a Ana Miguel trabalha com as coisas em volta dessa mulher. A Ana é muito aflitiva porque é bem mais perversa e venenosa, trabalha em pequena escala. Já a Rosana Palazyan também trabalha com a escala mínima, o que é muito desagradável, dá um desconforto para o espectador e acho interessantíssimo. E ela ainda trabalha com sangue. Ela tinge a linha do bordado com sangue para retratar a violência, coisa meio assustadora. Por último, a Márcia X, que incomoda porque um falo de sex shop deveria ficar escondido numa gaveta, não num museu. É um deslocamento de lugar muito violento. O tema dela é o desejo sexual e o prazer”, resume.
Para a pesquisadora e autora, as políticas estéticas hoje refletem a demanda reprimida de desejo na mulher. “Políticas estéticas são uma forma de política interessante. Não estou falando que a arte é uma política, não estou falando de arte política. É o contrário, uma estética onde você faz diferença e se comporta, toma atitude e negocia poderes através disso. Quando falo em políticas estéticas, falo em estratégias que unem linguagens – que podem ser corporais, visuais, literárias ou comportamentais. As artistas hoje arrebentam, são extremamente agressivas e acham que não têm nada a ver com o feminismo. O feminismo deu um salto muito maior que qualquer uma poderia imaginar porque na minha geração as mulheres não eram violentas assim. E a arte feminina hoje, dos anos 1990 para cá, é muito mais violenta, afirmativa e política”, esclarece.
O feminismo calado
Por fim, Heloísa Buarque de Hollanda remonta as origens do feminismo nacional para explicar o porquê de as mulheres brasileiras demorarem tantas décadas até se expressarem de modo tão explícito nas artes. “Nos anos 60, depois do Golpe, a Igreja era progressista. Portanto era um órgão fundamental para a resistência política: ela protegia, acobertava, fortalecia, inspirava e agia, foi um baluarte contra a ditadura. E um movimento político novo como o feminismo não ia se meter com esse baluarte. Então não se fala em aborto, sexualidade nem direito ao corpo no feminismo brasileiro até os anos 80”, lembra.
“Toda a luta feminista brasileira foi pelo direito à saúde, trabalho, salário, justiça e igualdade, mas social. Você não podia falar do seu desejo. Era uma demanda estrategicamente calada naquele momento. Mas isso deu um aspecto ao feminismo brasileiro muito peculiar. É estranho porque continua um pouco desconfortável essa demanda, parece uma demanda supérflua e pessoal. E a arte acompanhou um pouco isso. Nos anos 60 e 70, as artistas trabalham a questão da sexualidade – mas não do sexo. Você não tem isso na arte nem na literatura brasileira feminina daquela época. Você tem muitas estratégias interessantérrimas de falar sobre a mulher, mas não tem o que essas mulheres de hoje, que dizem que não são feministas, têm. Acho que isso é que é importante: a sua raiva e a sua violência, não só o seu confronto”, conclui.
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