Dia 05 de JUNHO
JACOB PINHEIRO GOLDBERG


“O ser humano mergulha em grupo para manter sua individualidade”
O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg avalia a dinâmica das tribos urbanas contemporâneas e promove reflexão sobre silêncio e histeria de massas

No último dia 5 o ciclo Paideia – Fórum de Idéias entrou na sua segunda fase. O módulo Pathus, que pretende discutir a relação do homem consigo mesmo e com os outros, foi aberto com a palestra do psicanalista e autor Jacob Pinheiro Goldberg, intitulada “Tribos urbanas, movimento de massas e mobilização social: Silêncio e histeria nas manifestações públicas”. Foram quase duas horas de reflexões sobre a luta pela subjetividade em meio a coletividade imposta socialmente. “Nós nos situamos diante de uma bipolarização: o apelo do público e o desespero do privado; a angústia do íntimo e a proposta do estímulo; aquilo que nós temos por dentro e nos verticaliza e aquilo que sugere o achatamento”, aponta Goldberg, acreditando que as megalópoles e as novas tecnologias têm papel fundamental nesta dinâmica. “A megalópole é um mundo de imigrantes e de peregrinos, um universo flutuante que desemboca na Internet. Aonde se confunde o virtual, a concretude e o abstrato. O simbólico e o imaginário. É da rede extraordinária que nos promete a cada instante o mundo da fantasia. Não por acaso os programas de TV de maior audiência no mundo são aqueles projetivos, que encerram num universo fechado todo o hedonismo possível e imaginário”, afirma.

A mensagem do não-dito

Para o renomado psicanalista mineiro, ao se analisar o fenômeno de tribos urbanas, uma das principais abordagens é o respeito da hierarquia da exposição e o silêncio existente nesses grupos. “Para resistir, as tribos precisam muito do não-dito. O não-dito é muito importante porque em grande parte é nele que existe a proteção contra o medo. E implica numa sensação de continuidade que na espécie freqüentemente se manifesta na necessidade geracional, a vontade de ter filhos e de prosseguir”, defende.

“O ser humano mergulha em grupo para manter a sua individualidade. A palavra ‘interesse’, etimologicamente, é inter-esse, que quer dizer ‘estar entre’ ou ‘estar com outro’. E em muitas religiões primitivas a idéia do diferente é uma presença de santidade. Principalmente no Oriente existe muito essa idéia de que o visitante é o dono da sua casa. Então esta é uma noção saudável de grupo. A minha suspeita é quanto à informação da tribo. Há risco e perigo desse apego a essas uniões que se estabelecem em cima de tribo. Por exemplo, os pitboys. Uma tribo que durante o dia nem tem sequer elementos comuns, mas à noite sai para bater e quebrar”, continua, distinguindo o conceito de grupo e tribo.

Histeria e assimilação

Jacob Pinheiro Goldberg também aborda a histeria de fãs por ídolos carismáticos. “Gosto muito da expressão ‘pregnância’. É como se fosse uma contaminação mesmo, sabemos que existem esses processos de contaminação. E é interessante porque a histeria se estabelece tanto em linguagem de ódio quanto de amor. Você pode desencadear isso até para a vitimologia total, com vontade de morrer, como também o inverso, um amor coletivo que chega ao orgásmico. Acho que isso faz parte da psiqué humana. E dos códigos que ficam nessa linha tênue entre o racional, aquilo que é perceptível, e o irracional, portanto aquilo que nós temos de mais infantil, que é um apelo permanente aos sentimentos mais primitivos. O mesmo grupo que é capaz de aplaudir, agradar e se prostrar, é capaz de se revoltar. Algo absolutamente xamânico”, define.

No debate com a platéia, que contou com a presença da apresentadora de TV Maria Paula e seu marido, o compositor João Suplicy, foi levantada ainda a questão sobre a assimilação das diferenças. Goldberg explica que segmentos mais conservadores da sociedade têm incorporado minorias a fim de sobreviver. “Existe um conceito do bode-expiatório, de que toda sociedade precisa dele. Contemporaneamente isso está sendo substituído quando notamos o ‘orgulho negro’, ‘orgulho gay’, ‘orgulho feminino’, o orgulho de grupos antes tidos como minoria. O que me parece é que grupos mais conservadores estão sendo obrigados a fazer concessões e a aprender a conviver com aquilo que existe dentro deles. Se não fosse isso, eles se explodiriam. Então é uma forma de se compor consigo mesmo. Essa pode ser uma grande lição democrática”, completa.