Dia 03 de JUlHO
Maria Rita Kehl


“O erotismo não é necessariamente estético”
Maria Rita Kehl denuncia paradoxos e deturpações da nossa sociedade consumista, espetacularizada e narcísica, além dos efeitos sobre a nossa subjetividade

No último dia 3, o Paideia inaugurou o seu terceiro módulo, Eros, com a palestra “Cultura do espetáculo: Consumismo e imediatismo nas novas identidades sociais” da psicanalista Maria Rita Kehl. O evento marcou a estréia das conferências semanais do Fórum de Idéias no auditório do Arte SESC, no Flamengo (zona sul do Rio), onde acontecerão até o final de agosto. “Parte do erotismo é aliciado para o consumismo. E o espetáculo é uma das formas que alia a subjetividade ao poder. Pela primeira vez na história da humanidade o espetáculo é produzido industrialmente”, aponta.

Durante a conferência, Maria Rita defende que vivemos numa sociedade que tem uma grande crença no valor dos objetos e de suas marcas, além do valor que eles seriam capazes de nos conferir. Trata-se de uma sociedade não só consumista como também espetacularizada e narcísica. “O exemplo mais banal disso é a televisão. Nela, o espetáculo é tudo. É imagem com grande poder de sedução e de identificação. De nos mostrar uma imagem que diz ‘você está conosco, você é um de nós’. Há uma convocação direta para o espectador participar, com o seu olhar, dessa espetacularização da vida”, afirma.

Sexo, o valor agregado

A psicanalista lembra que o espetáculo produzido industrialmente tem um poder sobre nós que Karl Marx e Sigmund Freud identificam sob a mesma nomenclatura: fetiche. “O objeto fetiche existe para ocultar uma diferença, uma falta, algo que não é exatamente aquilo que aparece. Nós só suportamos viver num mundo com as nossas faltas se, de certa forma, essa dimensão fetichista do espetáculo sacie essa nossa carência e ausência, aquilo tudo que no humano é faltante ou insuficiente”, avalia.

Maria Rita Kehl observa também o papel da publicidade e seu efeito sobre nossa subjetividade. “Se a publicidade não tivesse forte influência sobre o nosso desejo, as empresas não gastariam milhões com publicidade. E não pagariam milhões para colocá-las em certos horários da televisão. Isso desvela de certa forma a nossa condição contemporânea. O sexo é valor agregado em todas as mercadorias. É preciso uma moça de biquíni para você tomar uma cerveja, é preciso um gatão para você querer entrar num carro. Sexo é um valor agregado, mas só agregado. O verdadeiro valor é a marca”, denuncia.

A ilusão do não-enigma

As conseqüências dessa relação seriam ilusões sobre suprir suas próprias carências e desvendar seus enigmas. “Isso vai produzir subjetivamente uma condição infantil, no sentido freudiano, de que nós não precisaremos mais lidar com as nossas faltas nem com as nossas insuficiências. E que sentido dou para a minha insatisfação? Esta aliança entre espetáculo e consumo. Dou o destino de comprar ou de desejar ter. A outra questão: como é que vou entender o enigma do meu desejo? Esse universo preenchido pelas imagens produz uma ilusão de que não haja enigma. E de que não há enigma nem naquilo que há de mais enigmático para mim, que é o desejo do outro”, continua.

“Acreditamos nessa oferta de imagens de corpos erotizados, perfeitos, trabalhados, malhados, siliconados. Acreditamos que, se conseguimos fazer o nosso corpo se identificar com aquela imagem, e parecermos o máximo com aquela imagem, nós dominaremos o sentido da sedução. No entanto, não tem melhor frase para definir o que acontece numa parceria erótica que ‘não sei o que ele viu nela’. Quando está na cara o que ele viu nela, é consumo. Quando não sabemos o que ele viu nela, é porque ela tem ali de fato algum mistério que só ele vê. O nosso desejo se move por um encontro entre aquilo que eu não sei de mim e aquilo que eu não sei do outro. Aí que se dá uma boa liga, ficamos capturados e nos escravizamos”, esclarece.

Paradoxo sexual

Em sua experiência de consultório, a psicanalista tem notado um número crescente de jovens que se sentem obrigados a ter uma vida sexual intensa. “No entanto, o desinteresse sexual se instala muito depressa. O erótico se esvazia muito depressa. Há um efeito inibidor pelo fato de que o sexo se torna quase que obrigatório. E tudo que é obrigatório é indesejável. Essa inibição também faz sentido nessa sociedade em que ter uma vida sexual, e mostrar que tem, é tão importante para o prestígio quanto usar um tênis de marca ou saber qual é a boate que você deve ir. Nessa sociedade, há uma convocação a uma potência que tem que se ostentar e tem que se exibir”.

“A nossa auto-estima hoje é muito mais baseada na nossa imagem do que quaisquer outras qualidades que possamos ter ou conquistar ou desenvolver. Criamos uma espécie de paradoxo: uma sociedade muito erotizada, com muito investimento sobre os corpos e sobre a sedução, mas onde as pessoas não estão olhando umas para as outras. Elas estão olhando para si mesmas. Elas estão muito mais se exibindo do que interessadas em ver o outro. Ora, o exibicionismo deve ter em contrapartida o voyerismo. Se todos estão se exibindo, quem é que vai olhar? Há um empobrecimento da arte erótica, que passa por modos de trazer prazer ao corpo do outro que não são estéticos. O erotismo não é necessariamente estético, é uma outra linguagem”, encerra.