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Dia 14 de agosto
Regina Migliori
“Ninguém vai bem num mundo que vai mal”
Regina Migliori aponta a necessidade de alinhamento entre corpo, mente e consciência para lidar com os novos desafios do século 21
No último dia 14 foi a vez da educadora, advogada, escritora e consultora Regina Migliori compartilhar seus conhecimentos no módulo Mythus do Paideia com a instigante palestra Espiritualidade, competência e conhecimento. Regina, que é pioneira na criação de Programas de Educação e Gestão centrados em Ética, Cultura de Paz e Sustentabilidade no Brasil, discorreu sobre a mudança de paradigma que enfrentamos hoje. “A novidade é falar sobre estes três aspectos ao mesmo tempo. Talvez, isto seja o mais desafiador da atualidade. Como é que conseguimos manter um alinhamento entre aquilo que eu sou, aquilo que eu penso, aquilo que eu sinto e aquilo que eu faço”, enumera.
A palestrante enfatizou a necessidade de alinhamento entre as esferas somática (corpo), psíquica (mente) e espiritual (consciência) da estrutura humana. “É fundamental manter a fluidez de diálogo entre as esferas de ação, criação e inspiração. É assim que despertamos no mundo. A estrutura humana vem de fábrica, não é opcional. E é ela que nos caracteriza como seres humanos. Qualquer ser humano traz uma esfera somática, psíquica e espiritual. E é isso que define a forma como nos relacionamos com a realidade, é isso que nos define no nosso jeito de ser e no nosso jeito de agir, naquilo que chamamos de identidade. Se acionarmos essa multiplicidade de potencialidade, vamos nos tornar muito mais competentes para lidar com um infinito conjunto de desafios”, afirma.
Percepção excludente
O debate começou com um vídeo de 15” que apresentava dois grupos realizando três manobras de basquete. A palestrante provocou a platéia presente no Arte SESC a descobrir quantas vezes o time da camiseta branca faria passes com a bola quicando. E a experiência resultou em relatos divergentes, denunciando como estamos condicionados a um modelo excludente de percepção. “Não existe nenhum responsável pela manutenção dele senão nós mesmos. É evidente que a minha pergunta conduz à uma percepção porque busco uma resposta. Mas ela não leva à proibição de perceber qualquer outro aspecto. Esta decisão está no modelo que cada um adotou para exercitar a sua percepção”, esclarece.
“Começamos a exercitar essa percepção a partir de um foco excludente, em que eu valorizo determinado aspecto e simplesmente ignoro outros. Chegando a ponto de dizer que o outro aspecto não existe. E a duvidar da percepção do outro. Exercitamos tanto isso que chegamos a um ponto em que nos tornamos insensíveis à realidade. Andamos somente por uma trajetória autorizada, naquilo que lhe é permitido perceber. O que está fora dali não existe. E aí começamos a criar determinados posicionamentos”, continua.
Rumo à cosmovisão
Regina Migliori lembra que o mundo de hoje nos exige que percebamos vários eventos simultâneos. “Temos competência perceptiva para isso. O resultado é que começamos a estabelecer outra forma de gerenciar o nosso foco, de estabelecer os nossos objetivos, de produzir os nossos indicadores a partir de uma perspectiva de cosmovisão. Ela nos permite lidar com uma amplitude de olhar. E mais que isso. A ter uma perspectiva inclusiva. É a prática da perspectiva includente. Eu não vivo a sua vida. Então o mínimo que eu posso fazer é acolher a sua experiência, enriquecer a minha percepção e ter aquilo como uma das matérias-primas que podem vir a dar origem a um conhecimento múltiplo, a um relacionamento de respeito às diversidades”, propõe.
“A visão fragmentada gera um determinado foco e estabelece objetivos para chegar lá. A cosmovisão inclui outros aspectos. É evidente que vamos manter os nossos objetivos. Mas, por não usar o meu foco excludente, como eu incorporo inúmeros outros aspectos da dinâmica de relacionamento com a realidade, não basta chegar lá. Não basta saber onde quero chegar. É importante que eu perceba como é que estarei e como é que o mundo estará caso cheguemos lá. No meio do caminho ainda pode ter um bando de mudanças. A tal da flexibilidade. É isso que hoje se chama ‘pensamento estratégico’ e ‘pensamento sistêmico’. Visão complexa da realidade. Essa capacidade de incorporar um conjunto amplo de experiências de percepções e lidar com todos eles ao longo da nossa trajetória”, explica.
Os novos desafios
A consultora apontou os desafios do século 21, segundo relatório publicado pela Unesco. São eles: global X local; universal X particular; tradição X modernidade; soluções a longo prazo X a curto prazo; igualdade de oportunidades X competitividade; construção de conhecimento X assimilação de informação; e espiritual X material. “Estamos sendo instigados a lidar com um novo patamar de desafios. Questões como ecologia, miséria humana e economia não dependem de um único indivíduo. Ou a humanidade inteira se entende, ou não haverá solução. E isso é muito novo. É uma experiência inédita na trajetória da humanidade. Vamos ter que conseguir elaborar algumas estratégias e tecnologias para lidar com isso. Precisamos encontrar mecanismos de entendimento entre culturas, interesses, crenças e percepções diferentes. Nunca isso foi tão relevante porque é disso que depende o encaminhamento desses novos desafios”.
“Nos últimos 30 anos começamos a falar em competitividade. E chegamos ao ponto de imaginar que a vida evolui por competição. O que garante a evolução da vida é a complementaridade entre as diferenças”, revela. Para a consultora, o conceito de segmentação imposto por empresas e veículos de comunicação deve ser repensado. “Segmentação virou quase uma bíblia. Chegamos ao absurdo de segmentar tanto que criamos valores compartilhados somente por determinado grupo. E todo mundo celebra porque o ‘meu trabalho’, ‘o meu grupo’ e ‘a minha empresa’ estão dando certo. Mas ninguém vai bem num mundo que vai mal. Vivemos num ambiente globalizado, onde as relações se dão numa perspectiva de extrema complexidade e numa imensa dinâmica de velocidade. E, portanto, precisamos identificar uma esfera de valores reconhecida como universal. Daí a expressão ‘valores humanos e universais’ ter tanta força hoje”, avalia.
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