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Dia 26 de JUNHO
Luiz Alberto Py
“Alguma coisa vai mal com todos nós”
Luiz Alberto Py revela que os recentes “crimes gratuitos” que têm tomado conta das manchetes são apenas sintomas de uma sociedade doente e aponta caminhos para a criação dos filhos hoje
Na semana em que o último tema do módulo Pathus do Ciclo Paideia é “Amor, cuidado e relações familiares: pais, filhos e sociedade” um crime provoca indignação no país. Cinco jovens de classe média alta espancam uma empregada doméstica num ponto de ônibus na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio) e roubam o seu celular, aparentemente por puro divertimento. Manchete em todos os jornais, o caso não poderia deixar de ser comentado pelo psicanalista Luiz Alberto Py na palestra do dia 26. “O meu sentimento é que esse incidente aparece como um sintoma. Alguma coisa vai mal com todos nós. Em geral, os sintomas nos dizem que alguma coisa está errada com o organismo”, compara.
“O que mobilizou a população e a mídia foi o fato de este incidente não ser uma coisa isolada. Não foi um grupo de garotos doidos que atacou uma pobre moça no ponto de ônibus. Se fosse isso, ninguém teria dado tanta importância. A importância se deve ao fato de que isso avisa que alguma coisa está errada. É o sintoma. Nosso instinto diz que tem um sintoma aí”, explica. “Crime estúpidos, gratuitos, sem sentido, são tipicamente brasileiros. Tocar fogo num índio, espancar uma pessoa sentada na rua, arrastar um menino pelo carro. Aquela coisa de ‘não tem importância, é assim mesmo que é, todo mundo é assim’. A doença da nossa sociedade é essa brutal inversão de valores com a qual nós convivemos”.
A recompensa do amor
Para Luiz Alberto Py, o primeiro elemento importante na estruturação da vida emocional é o que se chama de auto-estima, gostar de si mesmo. Mas o que deterioraria a auto-estima ao longo do tempo? “O processo de educação implica permanentemente em estar reprimindo desejos em função da razão. Desejo é tudo aquilo que vem do instinto, do impulso, que é natural, espontâneo e da emoção. E vontade se refere a coisas da razão. A sabedoria está em harmonizar a razão com a emoção. Na vida inteira temos conflito entre desejo e vontade, isso começa desde a mais tenra infância”.
O psicanalista enfatiza que o caminho para harmonizar seria dar uma conotação positiva às atitudes dos filhos, corrigindo seus erros sem abalar a auto-estima. Py acredita que solidariedade e empatia façam parte do nosso DNA e que possam ser reforçados pela educação. “Se cultivarmos nos nossos filhos solidariedade, empatia, respeito e consideração pelos outros, estamos dando para eles instrumentos para eles gostarem mais deles mesmos. Instrumentos de recuperação de auto-estima. As pessoas que melhor se dão consigo mesmas são aquelas que mais têm tolerância, boa-vontade e benevolência para com os outros, para com os erros dos outros. Esse é um caminho muito frutífero no sentido educacional. Não há estímulo melhor que a recompensa do amor. Qualquer adestrador de animais pode dizer quais são as duas maneiras de se educar um bicho: punindo quando o animal erra ou premiando quando ele acerta. Pergunta qual é a melhor maneira?”, compara.
“Antigamente os pais podiam se dar ao luxo de serem mais rígidos, mas não dava muito certo também, não era mais fácil antes. Hoje em dia tendemos a ter menos certeza sobre como educar os filhos. Mas a certeza enlouquece. A dúvida é saudável e a certeza é enlouquecedora. Acho muito bom que os pais de hoje tenham mais dúvidas porque eles vão educar melhor, aprender mais e estar mais atentos para aprender. E os que têm certeza estão metendo os pés pelas mãos. É complicado, porque não tem ‘curso de pais’. Então é amor, é bom senso, é estar atento para os erros, procurar conversar, tentar falar a língua dele e tentar ensinar a ele a falar um pouco da nossa língua”, esclarece.
Dívida de gratidão
Ao longo das quase duas horas de palestra Luiz Alberto Py lembra que o amor a si próprio deve ser tão incondicional quanto o amor aos filhos. E que o amor dos filhos pelos pais é o primeiro que se aprende depois da auto-estima, que é intuitiva e instintiva. “O amor pelos pais é um amor que começa pela gratidão. Existe uma certa aflição de muitas pessoas em relação ao fato de sentir gratidão, ouço a expressão ‘dívida de gratidão’. Mas não se pode pensar em termos de dívida. O que eu posso me propor em fazer é: eu vou tentar dar para os meus filhos tanto ou mais que os meus pais me deram para mim. Passar adiante. Isso é bonito, é a evolução da humanidade. Recebi, passei adiante e espero que eles passem adiante. Aí é bacana, saudável, bonito, a humanidade está florescendo. Poder conviver com a gratidão é uma dádiva”, garante.
“É uma pena quando se perde isso por causa de falsas cobranças. Os pais jogam na cara dos filhos. Cobrar não adianta. É um passo errado, inútil e prejudicial. Temos que ensinar para os filhos a diferença entre o que damos porque é uma obrigação e o que damos a mais. Tem muitas coisas que damos por generosidade, que não são obrigações nem compromissos. É importante explicar porque senão eles pensam que tudo está no mesmo pacote da obrigação. E aí eles não valorizam, não percebem que tem um amor ali. É importante que se esclareça o que se está dando por generosidade e por amor, esse elemento tem que ser sublinhado. Saber que os pais foram generosos, além da obrigação, é uma ótima herança que levamos vida afora. Um gesto de altruísmo, de amor grande. E, ao nos sentirmos amados, aprendemos a nos amar também. Isso estimula, levanta e nutre a auto-estima”, encerra. |
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