Dia 21 de agosto
Rosa Alegria


“Criar realidade não é uma epifania”
Rosa Alegria defende a importância de resgatarmos a nossa capacidade de sonhar a fim de construir um futuro melhor

A palestra do módulo Mythus do Paideia no último dia 21 foi com a futurista Rosa Alegria falando sobre Realidade e consciência: o futuro mais perto de você. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, a conferencista enfatizou a importância de estarmos aptos a implementar mudanças e fazer projeções. “Temos que resgatar aquilo que nos foi usurpado, a capacidade que temos de sonhar. Quando você está na escola, você não aprende a sonhar. Você aprende a apatia social, a repetir coisas e replicar velhos modelos”, afirma.

“Estudar o futuro é muito prático porque apreendemos muito pouco do que lemos e do que ouvimos. Nossa realidade se dá apenas pelo que vivenciamos. E não somos educados a experimentar nada. É preciso resgatar a capacidade de imaginar. É preciso resgatar essa fé que temos em nós mesmos. É preciso virar essa página desse século do medo, que passou. O século 21 é hora de virar essa história. E não tem outra forma de apreender o que vem, de ampliar uma consciência nova, um novo olhar, que sair daquele velho modelo e valorizar aquilo que o diferencia”, continua.

Infoestresse e Neofilia

Apesar de otimista, Rosa Alegria lembra que nosso corpo está se adaptando à esta enxurrada de tecnologia sem precedentes na história. “Estamos vivendo uma época de profundas mudanças, incertezas e possibilidades. Não há dúvida também de que este é o momento mais importante da humanidade. Nunca tivemos tanto acúmulo de conhecimento. As grandes invenções mudaram o rumo da história e as relações sociais, influenciaram os modos de vida, tudo isso em 100 anos. Desde 1900, as mais importantes invenções estão concentradas neste período da história. É uma aceleração sem precedentes”, observa.

“Hoje estamos adoecendo pelo excesso de tecnologia. Temos doenças como Infoestresse, já catalogada na medicina. Não é apenas uma palavra nova, um neologismo, é uma síndrome causada pelo excesso de informação. As pessoas ficam desorientadas, deprimidas, com insônia e, até, efeitos físicos e orgânicos. Outra doença nova é a Neofilia, que é a submissão ao novo. É um impulso incontrolável de adquirir algo novo. E isso não é nada de espantoso se olharmos a juventude que compra a cada minuto e é assoberbada por ofertas de produtos. Principalmente no Japão, a juventude está num estágio grave disso. Esse é o choque do futuro”, alerta.

De Heráclito à Internet

Através de vídeos e slides, a palestra mostrou como invenções tecnológicas (Internet, celular, MP3), genéticas (decodificação do genoma), governamentais (União Européia) e comportamentais (casamento gay) têm revolucionado as duas últimas décadas. “Globalização, desmaterialização, convergência, comunicação, tudo isso leva à uma nova consciência. Não há caminho mais forte e mais poderoso que o da nova consciência. Estamos vivendo as dores do parto de uma nova civilização. Isso tudo é reflexo de uma história que faz a sua trajetória a partir de caos e a partir de dor. Recorrendo a Heráclito, ele não via a mudança como algo caótico, ele via a mudança como um princípio que dá ordem ao caos. E é esta ordem que está trazendo uma nova consciência”, defende. “A premissa de criar realidade não é uma epifania, não é um devaneio. É uma realidade científica. O seu mecanismo cerebral, na verdade, favorece criar comportamentos que atraem novas realidades. Você se projeta naquilo que você gosta, naquilo que você admira e seu cérebro responde. Aquilo que você admira pode fazer você criar novas realidades”, alega.

“Mudança é um tema amplamente divulgado e consumido. Em 2006, a Amazon Books relacionou 57 mil títulos sobre este tema. Em relação ao consumo, 90% dos produtos lançados e que estão nas prateleiras dos supermercados morrem em menos de 10 anos. Para lidar com a mudança, é preciso entendê-la nas suas diferentes formas: tendências, rupturas, cíclicas e questões emergentes. Onde estão as mudanças? Aonde eu miro o meu radar? É observar as pessoas, é uma arte poder captar os sinais do que está mudando”, recomenda.

Interconectados

A futurista destaca a característica sistêmica da sociedade, em que devemos estar cada vez mais atentos às nossas atitudes. “Vivemos neste mundo pós-cartesiano, em que os princípios da interconexão, redistribuição, heterarquia, incerteza e mudança estão trazendo uma nova ordem para a humanidade. Aliás, neste mundo moderno não há nada que se possa olhar sem o princípio da interconexão, que é o olhar sistêmico. Tudo afeta tudo. O que acontece com a ecologia vai afetar a economia, o que acontece com a economia vai afetar a política. Infelizmente, nas escolas os programas acadêmicos ainda são segmentados. Mas há uma co-criação”.

“Ao invés de sermos vítimas do futuro e das mudanças, temos que co-criar, temos que tomar as rédeas e nos apropriar dos desafios. Temos inteligência, conhecimento e evolução para que essa co-criação se realize. A realidade é esta. Mas qual desafio é mais importante? Um desafio afeta o outro e uns são mais centrais. O primeiro é a capacidade de tomar decisões diversas. O segundo é o da técnica, a forma pela qual você vê a realidade vai fazer toda a diferença. A mudança de mentalidade traz um novo olhar, que traz uma nova escolha. Sustentabilidade é hoje emergência, é sobrevivência. E é em torno desta sustentabilidade que se está fazendo muito dinheiro. E ainda bem”, encerra.