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Dia 24 de JULHO
marcia tiburi
“As massas não são burras”
Marcia Tiburi defende demanda por qualidade na mídia e propõe a desconstrução do desejo para não sermos vítimas da perversão
No último dia 24 a filósofa e autora Marcia Tiburi foi a terceira convidada do módulo Eros do Paideia para a palestra Retóricas sedutoras: o desejo do saber a partir do encantamento da mídia, em que apontou a administração lucrativa do desejo como um dos grandes males da sociedade contemporânea. Segundo ela, as nossas emoções estão colonizadas. E, caso não façamos uma desconstrução para olhar o avesso, o bonito pode se tornar perverso. “Perversão nada mais é que olhar pelo verso. A perversão é a produção de um lado sendo verdadeiro e um outro sendo falso. Sendo que o lado dado como verdadeiro acoberta o lado dado como falso. Para combatermos a perversão, temos sempre que mostrar os dois lados”, observa.
“Porque existe a Indústria Cultural? Porque as pessoas foram reduzidas a nada e se contentam com qualquer coisa. Aquela qualquer coisa que passa pelos meus ouvidos, aquela ‘qualquer música’. Se tapou o meu ‘buraco’, estou feliz, tive o meu ‘lucro’. O lucro envolve uma emoção voltada para ter posse sobre o próprio corpo, o próprio sexo, a própria roupa. Ficamos doentes. E para combater essa lógica, só dando. Dando tudo que não é para dar. Dê e sem esperar nada em troca”, propõe. “Vamos parar com as relações de troca. Isso está muito errado porque a cultura está toda errada. Estamos errados dentro de uma cultura enviesada, que cresceu torta e continua torta. O homem precisa acabar com os laços destas trocas. Ele precisa se responsabilizar diante do que fizer para poder ser feliz. Mas é preciso coragem para ele saber o que quer diante da vida”.
Inanição intelectual
De acordo com Marcia Tiburi, há uma espécie de “buraco” que tem sido preenchido pela Indústria Cultural, cujo maior representante é a TV. “Quando falamos de discurso, falamos sempre de poder. Quem fala está sempre autorizado e sempre tem alguém que vai escutá-lo. Porque o discurso se exerce em cima do desejo de quem ouve. Então eu posso falar a maior imbecilidade e alguém vai acreditar. Porque sempre haverá alguém com um ‘buraco’ tão grande que compra qualquer coisa. Qualquer pérola ou qualquer lixo que possa ser dado a ele”, diz.
“Claro que, quando o sujeito avalia os seus pensamentos e começa a entender como os outros se sentem, como funciona a história da humanidade em relação a isso, ele vai ficando mais livre para perder aquele ‘buraco’ que quer sempre preencher com qualquer coisa que o outro ofereça. Como se ele vivesse numa tal inanição intelectual que qualquer coisa que o outro diga venha então preencher o seu vazio. Quem falar de desejo tem que falar cortando sempre estas possibilidades. Do contrário, entra uma pérola, o outro compra e aí ‘ohhhh meu ídolo’. Não pode. Se ele fizer isso, ele será antiético”, continua.
Desejo: invenção, negócio e perversão
Para a filósofa, o nosso maior erro é achar que vamos descobrir o que é o desejo, onde está e para que serve. “O desejo é só o motor que move a nossa existência. Não desejamos por nada mais que continuar existindo dentro da possibilidade do desejo. E, portanto, o desejo não serve, ele não é para nos levar a sentido nenhum que não seja o próprio verbo intransitivo ‘desejar’. É só isso. Quem conhece o próprio desejo? Tenho a impressão, com toda a humildade do ‘sei que nada sei’, que o desejo é uma invenção. E, como todas as invenções, tem o seu lado bom e o seu lado ruim”, afirma.
“Desejar pode ser, para algumas mentes perversas, um grande negócio. Seres humanos vivem e continuam vivendo porque têm desejo. Aqueles que aprendem como essa aventura pode se transformar em mercadoria ficam ricos. Isso é um problema mais grave do que imaginamos. Tem sempre um sujeito que administra a palavra desejo e esse potencial em nome da vida e da vida que ele quer viver. E inventa roupa, bebida, droga, sapato, avião, televisão, tudo. Inventa até o desejo das pessoas por filosofia. Só desconstruindo tudo, a todo o momento, para não nos tornarmos vítimas sem saída dessa perversão. Estamos produzindo uma sociedade perversa. Se ninguém sabe o que é o desejo, como alguém pode achar que é capaz de administrar esse objeto absolutamente volátil?”, questiona.
O olho aterrador
Voltando à questão da televisão, Marcia Tiburi – que é uma das integrantes do programa de TV Saia Justa (GNT/ Globosat) – tem opiniões muito peculiares sobre o veículo. “O nosso olhar também é sitiado. Aquele que quiser ser dono dos seus desejos tem que aprender a preservar o seu olhar. A escola não oferece isso de fato. Muito menos a mídia, é por aí que ela coloniza. A televisão é um olho aterrador. Mesmo quando esclarecida, a pessoa chega em casa e liga a TV porque não suporta ter que viver com o olhar que ela própria tem. Então ela liga aquela coisa que olha para ela, como se estivesse sempre a aliviá-la. Descolonizar ou libertar o olhar envolveria um nível prático. As pessoas deveriam desenhar mais, ficar mais tempo no escuro, ler mais, ver mais obras de arte, passear nas ruas e prestar atenção em tudo. Caso contrário, o que vai ser filosofia hoje? Vai ser contemplação do status quo? Ao prestar atenção, o nosso olhar vai descolonizando. Prestar atenção significa ficar diante de um objeto e deixar o objeto falar”, defende.
“O YouTube hoje é um mecanismo de televisão e acho bárbaro. Não porque cada um pode fazer o seu oba-oba. Mas porque vamos quebrando com as hegemonias. E a televisão, o aparelho, perde o seu potencial de enganação. Aí renova-se o potencial de ficção porque todo mundo pode fazer. A TV é um desfavor. Se você não vê, o coração não sente. E acho que o melhor a fazer é não ver mesmo. Você poderia tentar alimentar melhor o seu estômago existencial. Descolonizar um olhar colonizado pela imagem só com muita educação, política, arte, ruptura e vírus. ‘Ahh mas aí não vai vender’. Não. Você torna o povo burro, você faz uma coisa burra, aí você sustenta o sistema do emburrecimento geral porque não tem coragem de pensar um pouco demais. Claro que tem demanda para a qualidade. As massas não são burras. O que as massas não sabem é que elas têm muito poder”, conclui.
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