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Dia 29 de maio
ANDRÉ URANI
“Temos que ser capazes de nos reinventar”
André Urani desmistifica o tabu das reformas políticas, exorta audácia social e afirma que o brasileiro precisa parar de apontar culpados e esperar soluções mágicas.
Somos um país de classe média alta no contexto mundial. Mais de ¾ da humanidade vivem em países que não têm a capacidade de gerar recursos como o Brasil. Porém, não é o que vemos ou sentimos nas ruas. Isso porque ainda temos muita desigualdade social. Mais que gerar mais crescimento, o nosso grande desafio atual seria produzir menos diferenças. Este foi o mote da instigante palestra “Pobreza e desigualdade: A razão social do Brasil”, que o economista André Urani ministrou no último dia 29. Seguida de uma hora de debate com o público, ela encerrou o módulo Logos do ciclo Paidéia - Fórum de Idéias, que acontece todas as terças-feiras na Caixa Cultural Rio de Janeiro (RJ).
Segundo André Urani, o paradoxo de não sermos um país pobre – mas termos um número ainda expressivo de pobres – exige que sejamos capazes de nos integrar cada vez mais a economia mundial. “Temos que ser capazes de integrar mais pessoas à sociedade de consumo e ao processo decisório da nossa sociedade. As questões que enfrentamos hoje são muito mais complexas que as de 50 anos atrás. A economia brasileira se abriu, privatizamos bastante e mudamos algumas instituições, mas elas deixaram de ser reformadas. É a agenda de reformas, que se tornou maldita. Falar disso hoje é quase um tabu. Ano passado tivemos as eleições presidenciais, o candidato adversário foi derrotado e violentamente atacado pela questão da privatização. Ele não foi nem capaz de seguir com o discurso”, aponta.
“Não faço parte de nenhum partido político. Quero simplesmente constatar que a agenda de reformas está órfã. Hoje ninguém tem interesse por ela, como se não fosse necessária. Essas reformas são necessárias para tornar a sociedade brasileira mais democrática, justa, competitiva e aberta, mais capaz de aproveitar as oportunidades que são geradas. Então por que essa resistência?”, questiona Urani, usando a provocação como gancho para debater sobre os mitos das impopulares reformas, como se fossem elas as responsáveis pela desindustrialização, mercado informal de trabalho, taxas de desemprego, diminuição de salários, pobreza e desigualdade social.
Comendo mosca
Em meio a isso tudo, o Brasil continua exaltado como o país do futuro. Fato é que o futuro já não é mais como era antigamente, sobretudo nas principais capitais do país. André Urani propõe que se pare de olhar para o passado e se comece a reinventar o futuro. Para ele, problemas metropolitanos não são demérito. Nosso erro é não nos tornarmos pró-ativos rumo a uma solução efetiva. “Temos reconhecer a nossa queda e não esperar por soluções mágicas. Todos estamos nesse buraco e temos que tentar encontrar formas de sair dele. Soluções não são fáceis, mas são possíveis. Não podemos imaginar que o futuro do Rio ou de São Paulo vai ter que se moldar por aquilo que pensávamos que ia ser há 30 anos. Temos que rever os nossos conceitos. Temos que ser capazes de nos reinventar”, afirma.
“Não temos razão para ter vergonha de estarmos enfrentando problemas. Eles são os mesmos que Barcelona, Turim, Milão, Filadélfia, Glasgow, Londres, Nova Iorque, Chicago, Edimburgo e as grandes cidades do mundo enfrentaram nos últimos 20 ou 30 anos. Mas não temos a capacidade de reconhecermos que estamos mal, ficamos bobamente jogando a culpa na taxa de juros, no fundo monetário ou no neoliberalismo. Não temos o mínimo de audácia para dizer ‘a responsabilidade é nossa, vamos tentar uma solução’ e assumir o nosso destino. Estamos comendo a maior mosca”, observa.
Vanguarda versus decadência
Apesar de ter apresentado dados e estatísticas preocupantes sobre a nossa realidade sócio-econômica nos últimos 50 anos, Urani tem perspectivas positivas. “Estamos sendo desafiados politicamente a assumirmos atitudes mais corajosas e de aprofundar o processo democrático, assumindo a questão metropolitana hoje. E enfrentar essa questão não se faz na Esplanada dos Ministérios”, analisa o economista, propondo a mobilização, conscientização e diálogo da sociedade em geral. “Não é uma portaria ministerial. É algo que vai depender da capacidade de falar e de ouvir entre diferentes instâncias de governo, setor privado e sociedade civil. Todos estão sendo chamados a redesenhar o espaço público. O que está em jogo hoje nas nossas metrópoles é isso”, continua.
Ao longo de duas horas de palestra e debate com o público, André Urani enfatizou a questão de metrópoles como Rio e São Paulo como raiz do nosso paradoxo contemporâneo. “Não somos egoístas ao colocar a questão metropolitana como central. O futuro do nosso país depende da nossa capacidade de enfrentarmos isso. Por definição, em termos de desenvolvimento, qualidade de vida, inovação e estilo de vida, a vanguarda é metropolitana. No Brasil ou em qualquer outro país do mundo. Renunciar a vanguarda é aceitar a decadência. Com todo respeito, não vai ser Macaé que vai imprimir estilo de vida. Temos aqui um papel simbólico e não dá para abrirmos mão”, conclui. |
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