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Dia 19 de JUNHO
YVES DE LA TAILLE
“Politizaram a moral e acabaram com ela”
Yves de La Taille afirma que a nossa sociedade criou uma cultura do tédio fomentada por pais ausentes e acusa que a moral tem sido politizada
Uma sociedade cada vez mais idosa, onde os mais velhos se ausentam e os mais jovens têm voz. Adolescentes que recebem contraditórias mensagens sobre moral e ética da sua família, escola e mídia. Este é o cenário que foi debatido pelo pesquisador de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Yves de La Taille. A conferência intitulada “Convivência, intolerâncias e conflitos urbanos: Novas gerações e a ética do possível” aconteceu no último dia 19 para uma platéia lotada no auditório da Caixa Cultural Rio de Janeiro (RJ), como parte do módulo Pathus do Ciclo Paideia – Fórum de Idéias.
“A matéria Educação Moral e Cívica foi extinta, que Deus a tenha. Porém cada professor é obrigado a falar de moral. Só que cada um fala uma coisa e a criança fica totalmente desorientada. Há um analfabetismo moral instalado hoje. A sociedade não trabalha a questão moral. Pior ainda, às vezes trabalha contra e passa mensagens contraditórias, como nas campanhas publicitárias. Não estou dizendo que a propaganda seja má, mas muitas passam mensagens de conflito”, denuncia o psicólogo. “A bandeira da moral é classicamente de direita. Trabalho, propriedade, família. Por isso a esquerda fugiu da moralidade. Mas ética não é política, é universal. Politizaram a moral e acabaram com ela. Na verdade, é uma grande desonestidade. Qualquer partido que se diga o grande criador da ética está mentindo, porque a ética não é uma questão política”, continua..
Cultura do Tédio
Para Yves, que é especialista em Psicologia Moral, uma pessoa só se submete à lei e às regras de convívio se elas fizerem sentido para o que se considera uma “vida boa”. Caso contrário, a probabilidade de haver senso moral é nula. “Uma pessoa sem sentido na vida é uma pessoa que não dá mais significado à vida. A própria vida deixa de existir. Portanto ninguém se mata por uma questão epistemológica, mas quando a vida deixa de fazer sentido. Quando a pessoa não sabe porque acorda de manhã, porque vai jantar, porque vai acordar de novo no dia seguinte, isso é uma porta aberta para uma vida infeliz. Não necessariamente leva ao suicídio, mas pode levar a um suicídio em pequenas doses”, diz.
“Vivemos num mundo fragmentado, de pequenos eventos e pequenas urgências. Hoje é mais importante esquecer que aprender. Das doenças mentais, a mais generalizada do mundo é a depressão. O que é a depressão? É a ausência de sentido da vida. O consumo de drogas e de álcool é altíssimo entre os jovens e, pelas estatísticas, há um pico de suicídios. Portanto, não somos uma sociedade feliz. É tanto álcool, é tanta droga, tanta depressão, que estamos vivendo uma Cultura do Tédio. Tédio é não conseguir dar sentido ao tempo. Quando tenho tédio, o que faço? Corro para me divertir. É uma forma de passar o tempo esquecendo. E, ao meu ver, não é por acaso que temos essa enorme indústria do divertimento. Necessidade de ir para a balada, de atender o celular, necessidade de toda hora estar falando com alguém”, conclui.
Visibilidade e silêncio
Yves de La Taille cita Aristóteles para mostrar a importância entre o conceito de vida boa e moral: ‘pior é ser injusto ou ser injustiçado?’. “Há apenas uma resposta moral e ética: pior é ser injusto. Mas, cá entre nós, será que a nossa sociedade não tende a pensar o contrário? Ser o perdedor, o loser, na nossa sociedade é a maior humilhação. Por isso muitas pessoas são violentas. Não porque não tenham limite ou porque são pobres e precisam sobreviver. O tráfico de drogas não atrai exclusivamente pelo dinheiro, mas pela visibilidade. Para um garoto pobre ter visibilidade social, ele tem que causar medo. Então o problema não é pregar o conceito de moral para uma pessoa dessas, mas que não há o conceito de uma vida boa. O projeto de vida boa é ético, com cooperação e generosidade. Infelizmente, na nossa sociedade, vida boa é sem o outro e contra o outro e fora da justiça”, dispara.
“O papel da família é se indignar. E nós adultos estamos muito quietos, muito parados, muito silenciosos. Nunca vi tanto velho no mundo e nunca eles estiveram tão ausentes. Quem domina o mundo são os jovens. Estamos vivendo uma ausência do adulto em geral. Somos os famosos ‘pais ausentes’. Antigamente o pai ficava o dia inteiro fora, não cuidava dos filhos como hoje, e ele era muito mais presente que o pai de hoje. Lembra daquela famosa frase ‘você vai ver quando o seu pai chegar’? Nada mais letal, nada mais perigoso para a educação moral e ética de uma criança que ela reparar que em casa existe um discurso contrário. O exemplo das pessoas próximas convence que o valor é humanamente possível. É raro? É, mas é possível”, completa, otimista. |
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